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Cavernas e Geoespeleologia

Prof. Dr. Ivo Karmann

18/11/2002

 

As fantásticas pinturas rupestres nas entradas e no interior de algumas cavernas, os enterramentos e restos de ocupações associadas a estas entradas comprovam o interesse milenar do ser humano por este ambiente. A visão comum de que cavernas são simples atrações turísticas ou locais para prática de esportes de aventura, está totalmente ultrapassada. Os estudos de cavernas revelaram um enorme potencial científico envolvido na evolução destas feições geológicas, desde a ação de bactérias em grande profundidade corroendo rochas calcárias, até o abrigo de registros sedimentares únicos das variações ambientais ocorridas durante as últimas dezenas de milhares de anos, incluindo restos de animais extintos ou vestígios de ocupações pré-históricas.

Cavernas são espaços vazios em rochas, formados naturalmente e que apresentam dimensões suficientes para dar acesso ao homem, segundo a definição adotada pela União Internacional de Espeleologia.

As cavernas são um componente subterrâneo do relevo cárstico, formado pela dissolução de certos tipos de rochas pela água subterrânea, a exemplo dos terrenos constituídos por rochas calcárias. Estão intrinsecamente relacionadas às outras feições cársticas, servindo freqüentemente como condutos para transporte de água subterrânea captada em superfície, que posteriormente escoa rumo às nascentes, servindo de ambiente para deposição.

Centenas de milhares de cavernas já foram exploradas na Terra, e provavelmente mais de 10.000 km de galerias já foram mapeadas. Estes números mostram que as cavernas, embora pouco conhecidas, quando comparadas com montanhas, rios e lagos, constituem uma feição geográfica significativa. No Brasil, cerca de 2500 cavernas foram registradas pela Sociedade Brasileira de Espeleologia (www.sbe.com.br), uma parcela ínfima, em se tratando do nosso potencial, seguramente da ordem de dezenas ou mesmo centenas de milhares de cavernas.

Do ponto de vista geológico, a maioria das cavernas ocorre em rochas calcárias, tendo inicio como estreitas fendas (canalículos) de dimensões sub-milimétricas a milimétricas (capilares), normalmente preenchidas por água. Neste estágio inicial, os canalículos são denominados de protocavernas, que servem de caminhos da água subterrânea. Através da ação de agentes corrosivos em profundidade, estas linhas de fluxo da água subterrânea desenvolvem através da dissolução de minerais carbonáticos (como calcita) uma rede de condutos interconectados que caracterizam aqüíferos de condutos, os quais podem abrigar grandes volumes de água subterrânea. Com a evolução da paisagem e processos de entalhamento do relevo (aprofundamento de vales fluviais), estes condutos atingem posições acima da zona saturada em água e assim esses sistemas de cavernas são acessíveis aos exploradores.

A descrição física e o estudo geológico dos espaços subterrâneos das cavernas e do seu conteúdo, são os objetivos da espeleologia física, que constitui um ramo da espeleologia geológica, ou simplesmente, da geoespeleologia. Na área da geoespeleologia, a espeleogênese é o conjunto de processos responsáveis pela origem e desenvolvimento de cavernas. O estudo de cavernas tem grande importância na geologia aplicada ou também chamada geologia ambiental, através do entendimento dos processos envolvidos nos afundamentos de terreno, colapsos estes às vezes catastróficos, como aquele ocorrido em Cajamar (SP) em 1986.

Acompanhando a evolução da ciência geoespeleológica mundial, o Instituto de Geociências da USP conta atualmente com uma linha de pesquisa em geologia de sistemas cársticos. Alguns dos temas objeto das investigações são: a origem de cavernas, características de aqüíferos em rochas calcárias, registros paleoclimáticos em sedimentos de cavernas, e dinâmica de sistemas cársticos, entre outros.

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