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Crateras por impacto de corpos extraterrestres - Astroblemas

Prof. Dr. Jorge Hachiro

19/08/2002

 

Mesmo que a colisão de corpos celestes com a Terra possa parecer ficção científica, a sua ocorrência ao longo dos 4,5 bilhões de anos do planeta foi algo relativamente corriqueiro, principalmente nos seus primeiros 2 bilhões de anos (quando o escudo protetor da atmosfera terrestre ainda era rarefeito) ao tempo em que "chuvas" de asteróides errantes cobriram luas e planetas de crateras descomunais. Pesquisadores de corpos celestes, cujas trajetórias cruzam ou se aproximam da órbita terrestre, avaliam que atualmente o choque com um desses bólidos espaciais é uma simples distribuição de eventos ao longo de parte do tempo geológico (aproximadamente, milhares a milhões de anos).

Desde o início da formação da Terra, o choque de asteróides, meteoróides e cometas vem tendo importância crucial para o destino e as condições reinantes no planeta. Basta dizer que pesquisas recentes permitem supor que a rotação da Terra em torno de si mesma e a inclinação desse eixo de rotação (~230) foram proporcionadas por impactos de gigantescos corpos celestes contra sua superfície, durante os primórdios do planeta.

Na Lua são reconhecidas mais de 30.000 crateras de impacto, de diâmetro e geometria dos mais variados. A Cratera Aitke localizada no pólo sul da Lua é considerada a maior (2.500km de diâmetro) e mais profunda (13km) cratera de impacto do sistema solar. Sobre a crosta continental terrestre até o momento foram detectados apenas cerca de 200 desses astroblemas (do grego astro = corpo celeste + blema = cicatriz; ou seja, cicatrizes produzidas na crosta terrestre pelo impacto de corpos celestes de grandes proporções). Sim, o que ocorreu na Lua repetiu-se na Terra, tanto pela proximidade ao satélite como pela atração da gravidade várias vezes superior e, ainda mais, tratando-se de alvo com superfície de impacto muito maior.

Essa disparidade numérica é explicada pela ação de agentes denudadores do relevo, atuantes na Terra (de eficácia praticamente desprezível na Lua) como a erosão e o intemperismo que aplainam as áreas aguçadas do planeta, e de mecanismos renovadores da fisiografia global como a sedimentação e a deriva dos continentes (inexistente na Lua) que reciclam constantemente as rochas terrestres (e.g., a crosta oceânica, por exemplo, tem ciclos de rejuvenescimento ao redor de 200 milhões de anos). Esses fenômenos terminam velando ou eliminando as feições características dos astroblemas. Somado a isto, temos o atual efeito abrasivo da atmosfera terrestre que tende a atenuar o potencial de impacto de bólidos menores que 10 metros através de sua incineração meteórica.

Apesar das crateras lunares serem conhecidas há muitos séculos, somente após a Segunda Guerra iniciaram-se as discussões sugerindo a geração dessas estruturas por impactos. O astroblema mais bem preservado na Terra é conhecido como Meteor Crater (1,1km de diâmetro; 200m de profundidade), foi formada há cerca de 50 mil anos no Arizona (EUA). Embora a morfologia e as características geológicas indicassem a obviedade de sua origem, até 1960, acreditava-se que se tratasse de uma feição vulcânica.

No Brasil devem existir dezenas dessas estruturas, embora até o momento tenham sido reconhecidas somente cerca de 10 estruturas de impacto. A maior é a de Araguainha (40km), no limite sul de Goiás-Mato Grosso, cujas rochas têm cerca de 247 milhões de anos. Na região sudoeste da Grande São Paulo, além do bairro de Santo Amaro, está o Astroblema de Colônia (3,6km) com provavelmente alguns milhões de anos. A cratera de impacto, de dimensões quilométricas, mais jovem do Brasil, foi formada no dia 13 de agosto de 1930 no Estado do Amazonas, próximo ao Rio Curuçá e abriu na floresta uma clareira de 1,2km de diâmetro. Sua localização foi possível graças a imagens de satélites (uma das formas de detectar as cicatrizes formadas pela queda de bólidos) e relato de um frade ao Vaticano. Acredita-se que esses corpos celestes, de dimensões (<100m) em condições de formar crateras como a de Rio Curuçá, podem cair em algum ponto do globo a cada 100 anos.

O Astroblema de Vredefort (300km; 2 bilhões de anos), na África do Sul, é considerado uma das maiores e mais antigas estruturas de impacto até o momento conhecidas na Terra. Este formou um domo e a bacia de Witwatersrand, a fonte de 50% do ouro já extraído na Terra. Outro astroblema, no Canadá, a estrutura de Sudbury (250km; 1,85 bilhões de anos), comparável ao anterior em tamanho e idade , é a maior fonte de níquel do mundo. Já outras estruturas de impacto, ao redor do mundo, foram encontradas durante atividades de prospecção de petróleo como no caso do Astroblema de Chicxulub (170km; 65 milhões de anos), no Golfo do México. Atualmente, este vem sendo intensamente pesquisado como prova da queda de um asteróide que causou uma das maiores extinções em massa, na passagem Cretáceo-Terciário. Este evento extinguiu cerca de 70% das então espécies vivas do planeta, entre as quais os dinossauros, os maiores e mais formidáveis répteis que habitaram o planeta

Como foi descrito, os astroblemas enquanto estruturas geológicas presentes na Terra, e em outros astros rochosos, têm grande importância econômica como áreas potencialmente ricas em depósitos de minérios importantes no desenvolvimento e progresso dos países.

Hoje em dia, a associação de sua gênese com eventos de extinção biológica de larga escala torna o estudo dos astroblemas uma das mais interessantes áreas de investigação científica dos institutos de pesquisas geológicas do mundo. O conjunto de conseqüências dos impactos de bólidos sobre a Terra tornou-se um dos mais recentes paradigmas para explicar a evolução do planeta e dos organismos aqui viventes. A formação das grandes crateras de impacto que provocam mudanças geológicas e ameaçam a delicada cadeia da vida, cada vez mais tem estimulada sua pesquisa.

É da natureza humana querer conhecer suas origens, saber de onde viemos e para onde vamos. Assim, geólogos, paleontólogos e geofísicos esforçam-se no estudo dos astroblemas com o objetivo de compreender o passado e o presente da Terra e, se possível, encontrar respostas sobre o futuro, face a eventual recorrência desses eventos.

Fonte das imagens abaixo: a-c) William K. Hartmann. d) A.R. Hildebrand & W.V. Boynton, 1991.

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