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Geociências e Educação Ambiental/Cidadania

Prof. Dra. Maria Cristina Motta de Toledo

O comportamento da espécie humana moderna (Homo sapiens sapiens) tem evoluído rapidamente desde sua origem, há cerca de 40 mil anos. De espécie nômade caçadora e coletora, passou a produtora (entre 20 e 10 mil anos atrás), com progressivo aumento das taxas de crescimento populacional e dos níveis de conforto e de esperança média de vida. Isto ocorreu à custa do desenvolvimento de diversas técnicas de aproveitamento dos recursos naturais, primeiramente para a produção rudimentar de armas e ferramentas e para o uso agrícola dos solos. Uma consequência foi a ocupação crescente de territórios e o uso dos recursos minerais, hídricos e energéticos. Hoje a população ultrapassa a marca de seis bilhões e, com a taxa anual de crescimento de cerca de 2%, pode chegar a 11 bilhões em meados deste século.

Cultivo de arroz em terraços criados sobre encostas, na Indonésia,

Com a Revolução Industrial, acentuou-se o grau de interferência nos processos naturais e efeitos indesejáveis no ambiente começaram a ser sentidos. Atualmente, temos bem caracterizados problemas de degradação ambiental mais ou menos graves, e que ocorrem em escala local ou global, todos eles com conseqüências negativas para a sobrevivência das formas de vida adaptadas ao ambiente da superfície da Terra até relativamente pouco tempo. Um exemplo típico é a atmosfera: sua camada de ozônio levou mais de 2 bilhões de anos para formar-se e, uma vez definida, possibilitou a ocupação dos meios aéreos pela Vida, até então restrita ao meio aquático. Atualmente, a destruição de parte da camada de ozônio representa uma ameaça à exposição natural ao Sol das espécies terrestres.

Muitos outros exemplos podem ser mencionados: erosão e perda dos solos agrícolas (perde-se num ano, por manejo inadequado, quantidades de solos que levam milhões de anos para formarem-se), rebaixamento de nível freático por exploração superdimensionada de aqüíferos, salinização de aqüíferos, contaminação do ar, água e solos, com entrada na cadeia alimentar de substância nocivas à saúde, aquecimento global, com redução das geleiras e subida do nível do mar. Nesta relação predominantemente predatória do ser humano com a natureza, uma das componentes é sem dúvida a falta de conhecimento, se não dos tomadores de decisão, da população em geral, privada de informações geológicas.

Colapso do solo em Cajamar (SP), em 1986, devido a rebaixamento do nível freático, pela exploração superdimensionada da água subterrânea.
Mineração a céu aberto de carvão mineral, em Charqueados (RS), evidenciando a grande mobilização de material natural para retirada do minério, que contém elementos tóxicos e permanece exposto a processos que podem poluir as águas e os solos. Foto S.L.F. de Matos
Assoreamento de rio causado por uso impróprio do solo, com consequente erosão (perda de solo agrícola) foto IPT.
Contaminação da água subterrânea e do solo em área industrial e urbana, causada pela disposição incorreta de grandes quantidades de resíduos sólidos e esgotos.
Visão geral de uma paisagem degradada por atividade de mineração (garimpo de ouro em Serra Pelada), com desmatamento, exposição do solo à erosão, ameaça à sobrevivência de determinadas espécies e modificação do ciclo local de água. Foto: E. Ribeiro Filho.

A conclusão disto tudo é que as próximas gerações já não terão direito a um ambiente tão saudável como as gerações passadas tiveram. A recuperação deste direito para as gerações futuras é uma meta mundial a ser atingida, o chamado Desenvolvimento Sustentável.

Com o entendimento deste quadro, têm surgido iniciativas no país no âmbito da Educação Ambiental. No entanto, a ênfase dada tem se referido à Biosfera, esquecendo-se que história da Vida e história da Terra estão intrinsecamente ligadas e a falta de temas relacionados à compreensão do funcionamento do meio físico terrestre promove o desenvolvimento de uma visão fragmentada e incompleta da Natureza. Mesmo o chamado ?turismo ecológico? costuma se restringir à parte biológica da Natureza, preterindo os ambientes geológicos que acolhem as formas de vida mais visitadas e admiradas. Neste ponto, convém lembrar que os diversos países da Europa apresentam, no estudo de Ciências, os conteúdos de Geociências e Biociências de forma integrada, objetivando promover a compreensão global do Sistema Terra (chamado planeta vivo, muitas vezes). Como conseqüência, lá, o turismo natural interessa-se tanto pelos aspectos biológicos como pelos geológicos.

Para atingir o Desenvolvimento Sustentável, deve-se ampliar a percepção de que as conseqüências indesejáveis da interferência humana no meio ambiente poderiam ser evitadas ou minimizadas se fosse levada em conta a dinâmica natural dos processos geológicos. Entretanto, no Brasil, a Educação fundamental e média praticamente não contempla o estudo do Sistema Terra, levando à idéia equivocada de que as interferências humanas na Natureza com reflexos negativos podem ser recuperadas com obras de mesma ordem de grandeza daquelas que geraram os problemas. Sem o conhecimento da real dimensão dos processos geológicos, do caráter natural das mudanças globais e de seus aspectos históricos, de suas correlações com a Vida e sua evolução, e, por outro lado, do reconhecimento da escala de intensificação dos processos naturais que a atividade antrópica provoca, não se poderá formar cidadãos responsáveis no uso e ocupação do meio natural.

Assim, é necessário equilibrar a formação dos alunos dos níveis fundamental e médio, com a inclusão de maior conteúdo em Geociências, de preferência em disciplinas específicas ou em conjunto com as Biociências formando um todo coerente de História Natural, possibilitando aos alunos o desenvolvimento de uma visão do planeta como um sistema (em que participa a Biosfera) de processos interdependentes. Somente com esta visão poderão ser formados cidadãos conscientes e sensíveis aos problemas ambientais, que são inegavelmente urgentes.

Neste contexto, convém ressaltar o papel das Geociências nesta fase da História, que pode dar uma contribuição efetiva à busca de soluções para as dificuldades que a sociedade enfrenta, monitorando os processos evolutivos do planeta e reconhecendo as modificações antrópicas, buscando e gerenciando de forma otimizada o fornecimento de recursos minerais e energéticos para a continuidade das atividades econômicas, gerenciando de forma a conservar os recursos hídricos e de solos agrícolas, monitorando os desastres naturais de forma a contribuir para a minimização de suas conseqüências sobre a sociedade e buscando as formas mais adequadas de disposição dos resíduos gerados nas diversas esferas da atividade humana moderna. Com todas estas tarefas, justifica-se que a população em geral tenha acesso a uma formação básica mínima nesta área do conhecimento humano, o que contribuiria para um desenvolvimento responsável da sociedade e para o exercício da cidadania.

Alguns outros pontos podem ser citados na valorização do conteúdo em Geociências na Educação de crianças e adolescentes. Os processos geológicos ocorrem segundo as leis físicas e químicas naturais, sendo a Natureza um laboratório privilegiado para o estudo daquelas ciências. Além disso, o caráter histórico da evolução geológica da Terra e a interdependência entre os fenômenos locais e globais obrigam o estudante a uma constante mudança na escala de raciocínio, tanto temporal como espacial, contribuindo para o seu desenvolvimento intelectual.

A recente criação do curso ?Licenciatura em Geociências e Educação Ambiental?, no Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo, é um dos exemplos das iniciativas que têm sido tomadas para promover uma maior cultura em Ciências Naturais no país.

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